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Estendais

por MC, em 28.04.16

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(Autor: Ramos Andrade) 

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publicado às 22:28

Apuramento do ilícito

por MC, em 24.04.16

“Sim senhor, muito bonito! Pois cá tenho os cavalheiros novamente no gabinete! Então esta é a terceira vez este ano, senhor Diogo? A quarta? Muito bem. E o seu companheiro de parvoíces mais uma vez a acompanhar, não é verdade, senhor Marcelo? Então desta vez arranjaram-na bonita, não é?”

Os meliantes, de olhar baixo, escondido pelo sombreado das pestanas e pelos cabelos em desalinho, simulam recato e apoquentação. Os ombros hirtos seguram os braços cruzados de mãos escondidas nas axilas e apenas o bater inquieto de um pé trai o cenário de impassibilidade.

“Ora então, vamos lá a ver: os senhores resolveram não ir à aula de Matemática, pois foi? E decidiram então que seria muito mais interessante ir agredir os colegas mais novos na fila do refeitório, certo?”

“Não foi nada disso”, rugiu o Diogo e respirou fundo, numa tentativa esforçada de transformar a raiva em razoabilidade. “Nós íamos almoçar. Eu estava uma beca maldisposto, porque… bem, eu hoje não comi nada de manhã e estava esquisito da cabeça e não ia ficar a apanhar alta seca na aula de Matemática durante uma hora e meia e então disse ao Marcelo que ia mas era comer e ele disse que vinha comigo e eu disse-lhe ‘tá bem”. O Marcelo abanava a cabeça para cima e para baixo em enérgica confirmação. Resolveu aproveitar o momento para adicionar argumentação razoável: “eu não ia deixar ele ir sozinho, ‘por causa que’ ele estava maldisposto e quando as meninas estão maldispostas nas aulas e pedem para ir lá fora os setores deixam sempre uma amiga ir com elas, não é? Então pronto”, concluiu com propriedade.

“Bom, depois já voltamos a questão da falta à aula. O que eu quero saber agora é como é que chegámos à situação do aluno do sexto A ter de ir ao hospital para ser tratado – para vossa informação teve de levar seis pontos na testa e vai ficar lá em observação para prevenir mais problemas; da dona Adélia ter um braço todo negro; da vitrina quebrada; e ainda a questão dos óculos do rapaz, que estão neste mísero estado”, conclui, exibindo a prova número um, a saber, uma armação de arames retorcidos, onde outrora presumivelmente se encaixavam lentes, agora desaparecidas.

“Nós só queríamos ir almoçar…”, começa o Marcelo, procurando arduamente encontrar palavras simpáticas que neutralizassem a feiura do ocorrido. Foi instantaneamente interrompido pelo companheiro com um gesto firme da mão.

“Deixa-me contar a mim. Nós chegámos à porta do refeitório e dissemos aos putos que lá estavam: “a gente vamos passar à frente que estamos com pressa” e eles chegaram-se para o lado, mas aquele choninhas do caral… - travou a fundo perante o olhar contundente do director e reformulou o discurso – o Daniel não deixou e começou a dizer que tínhamos de ir para a fila e blá blá blá e portanto tivemos de lhe aviar um bochecho valente no meio das trombas. Eu ainda o chamei à razão e disse-lhe: ‘ouve lá, ó betinho, eu não sei como são as regras lá na tua rua, mas lá de onde eu venho os grandes mandam e os pequenos obedecem, tás a ver?’

Mas o chavalo mesmo assim não atinou e começou a berrar ‘ó D. Adélia ó D. Adélia’ e começou a fazer ali um chavascal, guinchava que parecia que estava a pisar pioneses e eu mandei-lhe uma bucha mas ele é uma florzinha de merd… um fraquinho da treta e caiu todo junto para cima da vitrina e nessa altura a D. Adélia, que vinha a correr para acudir à coisa, tropeçou aqui no pé do Marcelo e disse f*da-se e esbardalhou-se em cima do choninhas que por sua vez já estava dentro da vitrina. E foi isto.”

Olhou com desapego e displicência para o seu interlocutor e ainda o agraciou com um esclarecimento ilustrativo da sua razão: “é como diz o meu pai quando a minha mãe se começa a esticar: ‘ó rapariga, tu féte atencion, que quem não tem dentes fortes não se aventura a trincar entrecosto, tás a perceber?!’ E olhe que ela acama logo que é um mimo!”

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publicado às 20:54

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 (do sítio do costume)

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publicado às 19:18

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publicado às 21:36

É tudo verdade, senhor doutor juiz. Foi exactamente assim que as coisas se passaram, mas acontece que… Não, senhor doutor juiz, eu não sou pessoa de voltar com a palavra atrás, foi tudo como está aí nesse papel, o que eu não vejo é razão para tanto escarcéu…

Não senhor, senhor doutor juiz, não estou a brincar consigo, eu era lá capaz de… “dois ponto oito”? Pois, se calhar era isso que marcava lá na maquineta de bufar, não digo que não. Quer dizer, eu não vi, mas confio na palavra dos senhores agentes, pois claro que confio. Agora dito assim, quer dizer – “dois ponto oito” – parece muito mau, mas…

Pois, compreendo, o senhor doutor juiz acha mesmo mau…, mas a verdade é que estava tudo a correr muito bem, por acaso foi um Domingo muito bem passado, é que eu tinha ido visitar o meu primo Acácio, sabe o senhor doutor juiz, quando a gente visita a família - há muito que não nos víamos - as saudades apertam… e uma coisa leva a outra… abre-se um balseiro de tinto… entorna-se uns canecos para untar a conversa, depois parece mal sair sem provar o branco… não fica bem uma desfeita, o senhor doutor juiz sabe como é…

Ah, não sabe? Não senhor, não senhor, não estou a tentar justificar a minha infracção, ora agora! Mas também não cometi nenhum crime assim tão grave! Não roubei nem matei! Eu nem fiz nenhuma aselhice, calha bem! A verdade, verdadinha, é que eu ia ali direitinho que nem um fuso, a deitar contas às minhas lides. Quando se deu o caso dos senhores agentes me mandarem parar, já eu estava mesmo à bordinha de casa: fica ali coladinha ao nó da autoestrada, como quem embica à do Zé Sabujo – pronto, pronto, não interessa, de facto não interessa, não senhor. O que conta é que eu lhe garanto, senhor doutor juiz, que conduzo muito bem, não é para me gabar, mas conduzo, palavra de honra, e a bebida não me transtorna.

Mas sabe o senhor doutor juiz, ainda lhe vou aqui confidenciar uma coisa muito curiosa e com muita piada. A minha esposa até nem acredita quando eu digo isto, cuida que estou a mangar com ela, mas não: eu estou convencido que conduzo muito melhor quando estou com um grãozinho na asa.

Ai o senhor doutor juiz também cuida que é reinação? Garanto-lhe que não estou faltar ao respeito, senhor doutor juiz, juro pela alminha da minha mãezinha que já lá está na terra da verdade. Mas é que isto é verídico, senhor doutor juiz, eu caia já aqui mortinho. Do mais puro que há. Olhe que já não é uma vez nem duas que reparo nisso.

Ainda aqui há dias, senhor doutor juiz, estava eu a matar o bicho na cozinha e oiço o vizinho Bernardino ai ai ai andava a cavoucar a belga das melancias e às tantas descaiu-se-lhe o tractor na levada ai jesus ai mãe e agora quem é que tira dali o sacana do tractor, com sua licença, e lá andámos de volta do bicho e acelera agora de rijo, assim não dá, agora devagarinho, a ver se não adorna de vez, até ficarmos os dois derreados das cruzes e o gajo, salvo seja, nada. Sentámo-nos então à porta do palheiro, a matutar no assunto e a beber uns canecos de aguardente que o vizinho lá tinha para a merenda da manhã. Foi por essa altura, senhor doutor juiz, que se me treparam cá uns calores e montei-me em cima do sacana do tractor, à laia de vaqueiro a domar um poldro, pu-lo a trabalhar e arranquei com ele vereda acima em menos de um fósforo. O vizinho Bernardino não fala noutra coisa. Diz a quem o quer ouvir que em tantos anos que tem no pelo, nunca tinha visto – peço desculpa, senhor doutor juiz, com sua licença, senhor doutor juiz - um cabrão de um tractor movido a bagaço.

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publicado às 18:53

Estendais

por MC, em 15.04.16

 

William Leftwich Dodge The Clothesline.jpg

The Clothesline, William Leftwich Dodge

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publicado às 01:01

Não

por MC, em 10.04.16

“Não, não E não”, sublinha, categórica. “Não quero”, repete entre dentes, os lábios apertados, as sobrancelhas franzidas, a franja irregular em desalinho, espetada como a rama de um ananás.

“Olha, são tão pouquinhas, as ervilhas… e as cenouras, que fazem tão bem! Experimenta lá uma colherzinha!”

“Nem penses. Não gosto disso. Não vou comer.”

“Mas sabes que os meninos têm de comer os vegetais. Só depois de comer tudo é que podem ir para o recreio. Assim, vais ficar aqui sentada muuuuiiiiiito tempo, enquanto os outros meninos vão brincar. Não é isso, que tu queres, pois não?” Com olhos baixos de ressentimento, abana a cabeça negativamente.

“Então tens de comer as ervilhinhas, vá lá. São tããããooo boas, a sério. Ora experimenta.”

“Já te disse que não quero. Não quero essas porcarias.”

“Ó Margarida, francamente! Uma menina tão bonita a dizer disparates! Os vegetais não são porcaria, fazem muito bem à saúde! Quando os meninos comem os vegetais crescem muito e ficam bonitos!”

Os braços cruzam-se obstinadamente, escondem-se as mãos debaixo das axilas, para que dúvidas não subsistam sobre a impossibilidade da capitulação: “Mas eu não quero. Não e não. Tu não mandas em mim. Vou dizer à minha mamã.”

“Olha, a tua mamã de certezinha que também quer que tu comas os vegetais, porque ela sabe que fazem muito bem. Até aposto que vai ficar muito triste quando souber que não os comeste.”

“Vai nada. Ela não me obriga, deixa-me comer o que eu gosto”, arremessa-lhe, a alegria do triunfo a bailar-lhe na voz. “A mamã dá-me batatinhas fritas e deixa-me beber sempre um sumo daquelas latas verdes com bolhinhas e eu gosto e como tudo e depois ainda me compra um kinder quando vamos ao café, mas vegetais nããããoooo. E na casa do papá é a mesma coisa, quase todas as vezes vamos comprar uma pizza e eu gosto muito de pizza. É muito bom, não achas, Geninha?”

“Acho, sim. Mas também temos de comer as coisas que fazem bem, como as ervilhas e as cenouras. Se tu as comeres o teu papá também vai ficar muito contente, sabes?”

“Não, meu papá não quer saber disso. Ele muitas vezes está ocupado a falar ao telefone ou no computador e quem me dá o jantar é a Débora Soraia. A Débora Soraia é a namorada do papá e um dia ela também queria que eu comesse a sopa e eu não queria comer. E depois eu gritei muito e chorei e engasguei-me e o papá veio lá de dentro e ficou muito zangado que já não se podia estar descansado naquela casa e que ele tinha mais que fazer e que estava cansado e gritou para a Débora Soraia: “eh pá, deixa lá a miúda comer o que ela quiser, mas que porra, pá, não há sossego nesta casa e depois a Débora Soraia também ficou zangada com o papá e comigo e eu não falei mais com eles e depois perguntei ao meu papá se podia comer um bolicao e ele disse que sim e foi assim.”

“Sabes, quando eu era pequenina e fazia birras assim como tu, a minha avó dizia que eu era teimosa que nem uma mula.”

“Ai sim? O meu papá também tem uma.”

“O teu papá também tem uma? Uma quê?”

“Então, Geninha? Não percebes nada? Está-se mesmo a ver: uma mula!”

“O teu papá tem uma mula?!”

“Sim, foi o que a mamã disse. Quando eu lhe contei que a Débora Soraia me queria obrigar a comer a sopa e que eu chorei muito e fiquei tããããoooo mal-disposta e quase vomitei a mamã ficou muuuuiiiito zangada e foi lá a casa do papá e gritou com ele e disse-lhe: ‘essa mula que não pense que só porque se meteu cá em casa, vai ter o direito de mandar na minha filha! É que nem sonhes, ouviste?’, disse-lhe a minha mamã. Eu ainda espreitei muito lá para dentro, mas não vi mula nenhuma.”

Parou por instantes para recuperar o fôlego e arrumar os pensamentos. Quedou-se, o castanho cândido dos olhos perdido nos restos de comida já fria. E ainda tornou: “ Ó Geninha, o que é uma mula?”

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publicado às 17:03

Redes sociais vintage

por MC, em 05.04.16

lavadouro campo ourique rua ferreira borges.jpg

 Lavadouro de Campo de Ourique, Rua Ferreira Borges (princípios do séc. XX)

 

 

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publicado às 18:43


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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